segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Croácia nasceu de violenta guerra


Croácia nasceu de violenta guerra

Vida Global Terça-feira, 13 de Junho de 2006

A Croácia, que enfrenta hoje o Brasil pela Copa do Mundo, é um jovem país nascido das guerras que destruíram a antiga Iugoslávia, criada pelo marechal Josip broz Tito, líder comunista e da resistência antinazista na Segunda Guerra Mundial. Com 4,5 milhões de habitantes e produto interno bruto de US$ 55 bilhões, é um dos países mais jovens do mundo.

Sua independência foi conquistada a ferro e fogo, em 1991. Por isto, o terceiro lugar na Copa de 1998 foi tão festejado. Era uma afirmação da nacionalidade. Mas o nacionalismo croata chegou a ter um caráter fascistóide por causa da guerra e da rivalidade histórica com a Sérvia.

Tito, um croata, conseguiu criar uma federação de seus repúblicas (Sérvia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Eslovênia, Montenegro e Macedônia) reprimindo os nacionalismos em nome do internacionalismo socialista. Desde sua morte, em 1980, esperava-se a desintegração da Iugoslávia.

Ela viria com o colapso do comunismo, que abriu caminho para o ressurgimento do nacionalismo nos Bálcãs com a mesma virulência que deflagara a Primeira Guerra Mundial. O principal responsável foi o ditador sérvio Slobodan Milosevic, que assumiu o controle do Partido Comunista da Iugoslávia em 1986.

Com o declínio da ideologia comunista, já em 1987 Milosevic começou a fomentar o nacionalismo sérvio como forma de consolidar seu poder. Num famoso discurso na província sérvia do Kossovo, de maioria albanesa, ele afirmou que “os sérvios não mais se curvariam”.

Foi o sinal para desatar os nacionalismos longamente reprimidos. A Sérvia, a mais forte das repúblicas iugoslavas, começava a mostrar suas garras. Ivan Stambolic, o líder comunista que Milosevic derrubara, diz que naquele dia a Iugoslávia acabou.

Milosevic presidiu a Sérvia de 1989 a 1997 e o que restou da Iugoslávia de 1997 a 5 de outubro de 2000, quando foi derrubado por uma revolução. Neste período, foi o anti-Tito, presidindo à dissolução sangrenta da Iugoslávia.

Em março de 1991, quando a população sérvia saiu às ruas para protestar contra a falta de democracia e de liberdade de expressão, Milosevic fomentou uma revolta da maioria sérvia na província croata da Krajina. Lá começaram as guerras que destruíram a Iugoslávia e terminou a luta pela independência da Croácia.

Os sérvios eram maioria na Krajina, onde se refugiaram depois de sua histórica derrota para o Império Otomano na Batalha do Kossovo, em 28 de junho de 1389, que eles comemoram até hoje, como um marco da nacionalidade e um símbolo da vitimização histórica.

Nesta mesma data, em 1914, um estudante radical sérvio, Gavrilo Princip, matou o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, nas ruas de Sarajevo, deflagrando a Primeira Guerra Mundial.

A Croácia e a Eslovênia foram as duas primeiras repúblicas iugoslavas a proclamar sua independência, em 25 de junho de 1991, com base na Constituição da Iugoslávia de 1974, que lhes garantia este direito. Se o Exército Federal da Iugoslávia reagiu primeiro na Eslovênia, a guerra foi rápida porque não havia uma população sérvia significativa.

Na Croácia, além da maioria sérvia na Krajina, havia uma presença sérvia na Eslavônia Oriental, junto à fronteira Leste, com a Sérvia. A guerra foi particularmente brutal na cidade de Vukovar, com atuação de esquadrões da morte sérvios e do notório terrorista Zeljko Raznatovic, conhecido como Arkan.

Em dezembro de 1991, depois da reunião de cúpula que criou a União Européia em Maastricht, na Holanda, a Alemanha, tradicional aliada da Croácia, rompeu com a recém-criada política externa comum européia. Decidiu reconhecer as independências da Croácia e da Eslovênia. Isto transformaria a guerra na Croácia numa questão internacional e não numa guerra civil, permitindo a intervenção de organizações internacionais.

Ao mesmo tempo, provocou a realização de um plebiscito na vizinha Bósnia-Herzegovina, a mais multiétnica das repúblicas iugoslavas, com 44% de muçulmanos, 31% de sérvios e 25% de croatas. A guerra da Bósnia foi a mais sangrenta na Europa desde 1945. O conflito começou logo depois da independência, aprovada em 1º de março de 1992.

Com a superioridade militar sérvia, Sarajevo foi sitiada e bombardeada durante anos. A política externa européia mostrou-se impotente e o presidente dos Estados Unidos, George Bush, pai, não queria se envolver em guerras na Europa no ano em que disputava a reeleição. Na geopolítica pós-Guerra Fria, a solução de conflitos na Europa cabia à UE.

Mas a UE se mostrou impotente e o presidente Bill Clinton percebeu que só os EUA poderiam acabar com o conflito. Os EUA armaram e treinaram o Exército da Croácia, violando o embargo das Nações Unidas que proibia a venda de armas para as ex-repúblicas iugoslavas, o que na verdade cristalizava a supremacia sérvia.

Foi uma ofensiva croata para retomar a Krajina, em agosto de 1995, que quebrou o mito da invencibilidade sérvia e criou um equilíbrio de forças no campo de batalha que levou os presidentes da Sérvia, Milosevic; da Croácia, Franjo Tudjman; e da Bósnia-Herzegovina, Alija Izetbegovic, a negociar o acordo de paz de Dayton, Ohio, em novembro de 1995, sob pressão dos EUA, da UE e da Rússia.

Uma nova guerra se iniciaria com o surgimento, em junho de 1996, do Exército de Libertação do Kossovo para lutar contra a dominação sérvia sobre a maioria albanesa. A violenta repressão ordenada por Milosevic levou à Guerra do Kossovo.

Por 78 dias, a partir de 24 de março de 1999, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, que interviera na Guerra da Bósnia, bombardeou a Iugoslávia (agora formada apenas pela Sérvia e Montenegro), até a rendição de Milosevic, que seria deposto no ano seguinte e entregue ao Tribunal de Crimes de Guerra para a Iugoslávia, em Haia, na Holanda, onde morreu em 11 de março de 2006.

Dos 161 réus processados pelo tribunal, a grande maioria é sérvia. Mas há também diversos croatas. A Sérvia reclama que a retomada da Krajina, onde viviam cerca de 200 mil sérvios, foi a maior operação de “limpeza” étnica das guerras que destruíram a Iugoslávia. Em quatro dias, atesta o tribunal de Haia, 150 a 200 mil sérvios fugiram da Croácia.

Guerra civil na Iugoslávia

Guerra civil na Iugoslávia

- Um dos maiores dramas da Europa Oriental no final do século XX teve como palco a Iugoslávia, nação erguida no pós-guerra com a união de seis repúblicas (Eslovênia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia, Montenegro e Macedônia), além de duas províncias autônomas (Kosovo e Voivodina).
- Desde 1945, o país vivia sob o regime comunista, estabelecido pelo ditador Josip Broz, o marechal Tito, que fundou a República Federal Socialista da Iugoslávia. Após sua morte, em 1980, os comunistas começaram a perder o controle do país. As divergências entre a Sérvia, principal república da Iugoslávia, e as demais regiões se agravaram.
- Em 25 de junho de 1991, depois de um plebiscito, a Eslovênia e a Croácia declararam independência. Slobodan Milosevic, eleito presidente da Sérvia em 1989, não aprovou a autonomia das duas repúblicas e teve início uma sangrenta guerra civil.
- Poucos dias após o início dos ataques à Eslovênia – primeira república a ser bombardeada pelo Exército iugoslavo controlado pelos sérvios –, o correspondente Silio Boccanera e o cinegrafista Luiz Demétrio Furkin foram para Liubliana, capital eslovena.
- Durante uma semana, a equipe da TV Globo enviou matérias para seus principais telejornais mostrando a situação do país durante o conflito entre as forças locais e as tropas federais. Os repórteres foram até o aeroporto da cidade, onde eram grandes os estragos causados pelos bombardeios. Nas estradas ao sul da Eslovênia, ficaram no meio do fogo cruzado, mas conseguiram captar imagens impressionantes dos ataques da Força Aérea iugoslava sobre os rebeldes eslovenos.
- Em 8 de julho de 1991, a Iugoslávia firmou acordo de paz com a Eslovênia. Logo em seguida, entretanto, o exército invadiu a Croácia e, com a ajuda das milícias sérvias locais, passou a ocupar um terço de seu território. A Globo não enviou nenhum correspondente internacional para a Croácia, e a cobertura da emissora foi feita basicamente com imagens produzidas pelas agências de notícias internacionais.
- A Comunidade Européia e a ONU intervieram no conflito, que durou até janeiro de 1998, quando os territórios ocupados pelos sérvios foram entregues definitivamente à administração croata.
- Seguindo os passos da Eslovênia e da Croácia, a Bósnia-Herzegovina também declarou sua independência. Num referendo realizado em fevereiro de 1992, a maioria da população votou a favor da soberania, enquanto os sérvios defenderam a permanência da república na Iugoslávia. Com isso, começaram os confrontos em Sarajevo, capital da Bósnia-Herzegovina, em que muçulmanos, croatas e sérvios destruíram-se uns aos outros. A Iugoslávia não participou oficialmente do conflito, mas forneceu apoio financeiro e militar às milícias sérvias, que rapidamente controlaram mais da metade da república. Iniciou-se uma “limpeza étnica” das áreas ocupadas, e campos de concentração começaram a surgir. A situação em Sarajevo chamou a atenção da comunidade internacional, que via todos os dias imagens chocantes do conflito. A população civil da Bósnia estava sendo dizimada, praticamente ao vivo, diante das câmeras das inúmeras redes de televisão.
- A guerra na Bósnia completou um ano em abril de 1993. Naquele momento, já havia 135 mil civis mortos, sendo três mil crianças. Mais de um milhão de refugiados não tinham para onde ir.
- Em 11 de abril o Fantástico exibiu a reportagem de Pedro Bial e o cinegrafista Sergio Gilz que acompanharam um dos vôos noturnos promovidos pela ONU (Organização das Nações Unidas) para lançar alimentos e medicamentos para a população bósnia, numa operação batizada de “Promessa de Prover”. No avião, que voava a uma altitude de três mil metros para evitar os bombardeios, os correspondentes aprenderam noções básicas de pára-quedismo e tiveram que usar máscaras de oxigênio nos momentos em que os mantimentos eram lançados. Para registrar a missão, o cinegrafista foi amarrado a um cabo que permitia que ele chegasse à ponta da rampa, quando a parte traseira do avião se abria para o lançamento das caixas. O vôo partiu da Alemanha e durou seis horas e meia, duas delas sobrevoando a Bósnia.
- Pedro Bial e Sergio Gilz presenciaram de perto os horrores da guerra quando foram enviados para Sarajevo, em julho 1994. Os dois saíram de Zagreb, capital da Croácia, em um avião da ONU, junto com as tropas de paz.
- Sérgio Gilz lembra o episódio: “Havia sempre a possibilidade de o avião ser alvejado, o que nos obrigava a tirar uma das proteções extras dos coletes à prova de bala que tínhamos nas costas e peito e sentar sobre ela. Na chegada, o avião taxiou bem próximo a uma proteção de sacos de areia para que pudéssemos sair com um risco menor de sermos atacados pelas tropas sérvias. O caminho do aeroporto para o hotel era a parte mais difícil. Nesse momento, ficávamos mais tempo expostos aos franco-atiradores”.
- Durante cerca de 20 dias, a equipe da TV Globo percorreu a capital da Bósnia, completamente devastada pelas bombas lançadas sobre a cidade em dois anos de conflito. Apesar de, na época, ter sido estabelecido um cessar-fogo entre sérvios e muçulmanos, diariamente esse acordo era violado. Munidos de capacete e colete à prova de bala, cinegrafista e repórter percorreram as trincheiras acompanhados por militares brasileiros que faziam parte da força de paz da ONU. Em uma dessas ocasiões, uma bomba explodiu a cerca de 20 metros do local onde estavam.
- Bial e Gilz registravam momentos dramáticos da população de Sarajevo. Da janela do hotel onde ficavam, puderam gravar imagens de uma das mais perigosas avenidas da capital, que ficou conhecida como “Sniper’s Avenue” (avenida dos franco-atiradores). Homens, mulheres, idosos e crianças atravessavam a rua correndo, temendo serem alvos dos atiradores, que não poupavam ninguém.
- No final de 1995, depois de quase quatro anos de guerra civil na Iugoslávia, chegou-se finalmente a um acordo, conhecido por “Acordo de Dayton”, cidade norte-americana onde foram realizadas as negociações. O conflito na Bósnia deixou 250 mil mortos e 2,5 milhões de refugiados.
- Em 21 de novembro, dia em que foi anunciado o acordo de paz, o Jornal Nacional encerrou seu noticiário com uma edição das imagens que marcaram o mundo durante aqueles quatro anos ao som da música Miss Sarajevo, cantada por Luciano Pavarotti e Bono, vocalista da banda irlandesa U2. A canção pedia paz.
- Dez anos depois, em 13 de dezembro de 2005, o Bom dia Brasil apresentou uma série de cinco reportagens, produzidas pelos enviados especiais Marcos Uchôa e Sérgio Gilz, sobre a situação na Bósnia. A primeira delas analisou a formação da antiga Iugoslávia e traçou o histórico de “uma das guerras mais sangrentas do século XX”. A série revelou, ainda, que dez anos não tinham sido suficientes para curar as feridas e que, mesmo após a volta para casa de milhares de refugiados, o país continuava dividido.
- Em 11 de março de 2006, conforme noticiado no Jornal Nacional, Slobodan Milosevic, “o carniceiro dos Balcãs”, foi encontrado morto no centro de detenção do Tribunal de Haia, na Holanda, onde respondia a processos por crimes contra a humanidade. O correspondente Roberto Kovalick informou que o homem “responsável pelos maiores genocídios na Europa depois da II Guerra Mundial” morreu em sua cela, aparentemente, de causas naturais.

Saiba tudo sobre a guerra nos Balcãs


Não é a primeira vez que os sérvios – ou iugoslavo fazem uma limpeza étnica nos Bálcãs. Antes dos albaneses kosovares, as vítimas foram os croatas e os bósnios, principalmente os muçulmanos, cuja religião foi herdada do longo domínio turco otomano na região até pouco antes da Primeira Guerra Mundial.
Aliás, os sérvios já estiveram envolvidos na deflagração da Primeira Guerra. Foi um estudante sérvio chamado Gavrilo Princip, pertencente a uma associação secreta conhecida como "Mão Negra", quem assassinou o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono da Áustria. O atentado bem sucedido, ocorrido na cidade de Saraievo na Bósnia, culminou com a declaração de guerra contra a Sérvia por parte do Império Austro-Húngaro. Os países europeus foram, um a um, arrastados para o conflito que durou quatro anos, de 1914 a 1918.
A região sempre foi um barril de pólvora e até hoje possui um baixo padrão de vida. O que mantinha a antiga Iugoslávia coesa era a mão de ferro do Marechal Tito. Mas sua morte em 1980 abriu espaço para a manifestação de nacionalismos reprimidos durante muito tempo. Eslovênia, Croácia, Bósnia e Macedônia conseguiram, a muito custo, desvencilhar-se da dura dominação sérvia.
O atual conflito possui raízes no começo do século e isso pode ser sabiamente explorado pelos examinadores nas provas de História. É recomendável estudar a hegemonia que os turcos otomanos já exerceram na região, as guerras balcânicas contra a Turquia, a Primeira Guerra, os fatores que contribuíram para sua eclosão, a formação da Iugoslávia em 1945, a vida do Marechal Tito, o pan-eslavismo (união de todos os povos eslavos sob a batuta de Moscou), a influência soviética na península balcânica após a Segunda Guerra, etc.

As Guerras Balcânicas
Entre 1912 e 1913, acontece a chamada “Guerra dos Balcãs”, que envolveu várias nações e províncias do leste europeu. Sérvia, Montenegro, Grécia e Bulgária uniram-se contra a Turquia, com o objetivo de expulsar os turcos otomanos da região, que dominavam a Macedônia, que pertenceria à Sérvia. A tendência de expansionismo da Sérvia também buscava anexar a Albânia. A Áustria, no entanto, interveio e conseguiu o reconhecimento da independência da Albânia, impedindo o expansionismo sérvio.
Estes conflitos se desencadearam na 1ª Guerra Mundial, e na formação prévia do chamado ''pan-eslavismo, que foi um movimento que visava agregar as nações na chamada Grande Sérvia. Em outras palavras, caracterizava o interesse hegemõnico do expansionismo Sérvio na região, com o apoio posterior da URSS stalinista. O final da Primeira Guerra e o desmembramento do Império Áustro-Húngaro, resultou na unificação dos territórios da Croácia, Eslovênia e Bósnia-Herzegovina com os da Sérvia e Montenegro. Nasce aí o chamado Reino da Sérvia, Croácia e Eslovênia.Durante a 2º Guerra Mundial, em 1941, a Yoguslávia assina um pacto de amizade com a URSS. A Alemanha, Itália, Hungria e Bulgária, então, invadiram a Yoguslávia, aproximando-se da Croácia, que fazia oposição e desejava a separação, o que os levou a uma aproximação dos croatas com a Alemanha.

Uma Guerra civil se instaurou na região.
Não apenas étnico, este episódio também pode ser visto como um conflito político. O sentido geo-político do conflito civil nos balcãs era claro, porém, “maquiado” pela justificativa de um conflito étnico. Havia, claro, interesses econômicos e territoriais.
Com o fim da 2º Guerra Mundial, é proclamada a República Federativa da Yoguslávia, ligada ao bloco socialista. Até o início da década de 1990 foi mantida tal ordem, baseada em um pensamento unitário (de partido único), influenciado pelo stalisnismo.
Ao longo dos anos foi produzida na região uma grande insatisfação popular, que explodiria durante a década de 1990.
De fato, a pluralidade da unitária Iugoslávia deve ser levada em conta: são cinco grupos eslavos (eslovenos, montenegrinos, croatas, sérvios e macedônicos); dois alfabetos (cirílico e latino); três línguas (esloveno, macedônico e sérvo-croata); quatro religiões (católicos, protestantes, ortodoxos e muçulmanos); e seis repúblicas federadas.
Em 1991 iniciou-se a fragmentação da Iugoslávia: Croácia e Eslovênia declararam suas independências. A Bósnia, em 1995, após três anos de guerra, conquista também a sua independência. A guerra da Bósnia, entre 1992 e 1995, mostra a divisão étnica do país, além de fazer saltar aos olhos os interesses econômicos por trás dos conflitos.
Na segunda metade da década de 1990, a Guerra de Kosovo intensificaria os conflitos na região. Desde desmembrada a Iugoslávia, sérvios e albaneses se digladiam na região do Kosovo, que luta para conseguir sua independência da Sérvia.
Depois dos bombardeios da Otan à Belgrado, em 1999, os líderes ocidentais e Slobodan Milosevic chegaram a acordo para colocar fim aos conflitos. As tropas sérvias seriam retiradas, com a formação de uma força internacional de paz no Kosovo.
por Professor Renato Amaral e André Rabini

Das guerras balcânicas ao reinado de Alexandre 1º

Das guerras balcânicas ao reinado de Alexandre 1º

Érica Turci*


Esp ecial par a a Página 3 Pedagogia & Comunicação



No início do século 19, a Península Balcânica estava dividida entre o Império Turco-Otomano - que controlava a Sérvia, a Macedônia, o Kosovo e o Montenegro (ou seja, o sul e o leste) - e o Império Austro-Húngaro, que dominava a Eslovênia, a Croácia, a Bósnia-Herzegovina e a Voivodina (ou seja, o norte e o oeste).

Além disso, depois de várias décadas de conflitos entre austro-húngaros, turcos e eslavos, de inúmeras migra ções dos sérvios, da conversão de uma parte da popula ção eslava ao islamismo e da migração dos albaneses para Kosovo, a região se transformou numa enorme confus ão de povos:

A Grande Sérvia

No século 19, a Europa passou a ser palco de inúmeros movimentos nacionalistas. Nos Bálcãs se difundiu o pan-eslavismo, uma forma de nacionalismo que defendia a independência e a união dos eslavos.

As duas primeiras regiões eslavas que conseguiram a independência foram a Sérvia e o Montenegro, em 1878. A partir de então, o nacionalismo cresceu entre os sérvios, que queriam a formação da Grande Sérvia: um Estado que englobasse todos os povos eslavos dos Bálcãs, inclusive pelo fato de que os vários territórios da região abrigavam minorias sérvias.

Nesse clima nacionalista, entre 1912 e 1913 estouraram as Guerras Balcânicas, transformando as fronteiras e as relações políticas da região. Os turcos, muito enfraquecidos há anos, perderam o controle sobre os Bálcãs, enquanto que a Sérvia incorporou a Macedônia e o Kosovo.

Além disso, na Bósnia-Herzegovina, terroristas que apoiavam a formação da Grande Sérvia promoviam atentados contra o Império Austro-Húngaro. Em junho de 1914, um atentado acabou por assassinar Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austro-húngaro.

Tal incidente foi o estopim para o início da 1ª Guerra Mundial (1914-1918), pois os austro-húngaros declararam guerra à Sérvia, enquanto a Rússia apoiou os sérvios. A Alemanha, aliada do Império Austro-Húngaro, invadiu a Bélgica, a fim de forçar a Grã-Bretanha e a França, aliadas da Rússia, a entrarem na guerra.

O Reino da Sérvia, Croácia e Eslovênia

No final da 1ª Guerra, croatas e eslovenos sugeriram a formação de uma "Iugoslávia", ou seja, um Estado dos "eslavos do sul", pois queriam se ver livres do domínio dos austríacos e húngaros. Tal Estado foi pensado por eles "(...) para não nos submetermos de forma alguma aos Bálcãs, que são uma extensão da Ásia. Nosso dever é europeizar os Bálcãs, e não balcanizar croatas e eslovenos" (Etienne Radic, político croata).

As diferenças culturais dos "eslavos do sul" eram enormes: Eslovênia e Croácia estavam mais ligadas à Europa e, por esse motivo, em constante mudança para se adaptarem à economia de mercado e à expansão capitalista, enquanto a Sérvia guardava os traços culturais da Ásia Menor, mais conservadora e fechada à influência capitalista européia.

Mas esses pormenores não foram levados em conta pelos países vitoriosos da 1ª Guerra (Grã-Bretanha, França e Estados Unidos) quando, nos tratados do pós-guerra, dissolveram o Império Austro-Húngaro, garantindo a formação de um novo país no sudeste europeu: o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, com capital em Belgrado (capital da Sérvia), sendo o rei da Sérvia, Alexandre 1º, o governante do novo reino.

O novo Estado englobava a Sérvia (Macedônia e Kosovo já faziam parte dos domínios sérvios), o Montenegro, a Eslovênia, a Croácia, a Bósnia-Herzegovina e a Voivodina, formando o que era, aparentemente, o anseio dos povos eslavos, mas que resultou no domínio da Sérvia sobre a região, exatamente o contrário do que havia sido proposto pelos croatas e eslovenos.

A primeira Constituição do reino, votada em 1921, não agradou a grande maioria dos eslavos, fazendo com que as disputas nacionalistas levassem a graves conflitos étnicos: os sérvios, espalhados por todo território, passaram a ser atacados por eslovenos, bósnios e croatas, que lutavam por autonomia.

Aproveitando essa situação crítica, Alexandre 1º suspendeu a Constituição e impôs uma ditadura (1929), batizando o reino de Iugoslávia e impondo a nacionalidade iugoslava como a única aceita pelo novo Estado, contando que, dessa forma, anularia a fragmentação histórica, cultural e nacional dos diversos povos.
ISTO É 15795 de janeiro de 2000


N A C I O N A L I S M O S
Nova desordem mundial

Além dos conflitos étnicos espalhados pelo planeta, há enigmas como a ameaça da grande nação islâmica e até a maioria latina nos EUA

KÁTIA MELLO

O grande desafio para as lideranças políticas do século XXI é como lidar com a questão do renascimento do nacionalismo. Ao contrário do que algumas cabeças pensantes apressadamente imaginaram, a globalização da economia, a internacio-nalização das instituições políticas e a difusão de uma cultura universal pelas diferentes mídias não eliminaram a realidade do Estado-nação, muito menos a da diversidade cultural. Pior: no final deste século, o separatismo espraiou-se como um rastilho de pólvora, trazendo à tona questões que até a guerra fria pareciam adormecidas, como, por exemplo, a identidade, o direito de um grupo e o direito de um indivíduo, contrapostos entre si. Se o fantasma da destruição nuclear foi amenizado, emergiram as múltiplas guerras civis, expressões de velhas rixas étnicas e religiosas.

A consequência aterrorizadora da febre nacionalista foram os genocídios justamente na era em que a humanidade parecia dar mais importância à consolidação dos direitos do homem. Em Ruanda, nada menos do que um milhão de pessoas, a maioria da etnia tutsi, foram massacradas, num banho de sangue que mereceu pouca atenção da mídia. Algumas dessas explosões de ódios étnicos desencadearam a destruição dos Estados nacionais e estremeceram conceitos que pareciam já estar estabelecidos, como a idéia de fronteira, explica o sociólogo catalão Manuel Castells. A Indonésia, por exemplo, por muitos anos tida e havida como um Estado unitário, está à beira de um esfacelamento. Não apenas o Timor Leste, ocupado manu militari pelos indonésios em 1975, mas também regiões inteiras, como a província de Aceh. Já a Bósnia-Herzegovina, palco de um pavoroso processo de “faxina étnica”, era um Estado completamente artificial, criado no regime comunista, cujas divisões étnicas e culturais remontam à Antiguidade.

O nacionalismo, que nas suas origens tinha por objetivo consolidar a identidade de um Estado-nação, transformou-se muitas vezes neste século em instrumento de manipulação de líderes políticos interessados em reforçar seu poder. Onde há desmoronamentos de regimes e onde há relações sociais instáveis, ou seja, onde a sociedade se sente insegura, ter uma língua e uma cultura em comum são razões para acreditar que o nacionalismo é a saída. E é exatamente aí que mora o perigo: a exclusão de minorias ameaçadas pelo poder dessas maiorias étnicas, uma variante da famosa “tirania da maioria” de que falava Alexis de Tocqueville.

O sérvio Slobodan Milosevic é exemplo claro de como um líder demagógico conseguiu catalisar os anseios e descontentamentos de um povo em um movimento nacionalista em benefício próprio. No caso da guerra da Bósnia-Herzegovina, sérvios cristãos-ortodoxos, croatas católicos e bósnios muçulmanos estavam amarrados durante décadas pela camisa-de-força de uma ditadura. O historiador britânico Erich Hobsbawn alerta para o fato de que não foram apenas as velhas disputas étnicas que desencadearam os separatismos balcânicos e do Cáucaso. “O que acirrou estes problemas não foi a força do sentimento nacional e sim a desintegração do poder central.”

A propalada nova ordem mundial, então, poderia ser considerada como a “nova desordem mundial”, com embates violentos e cicatrizes nas sociedades que poderão levar décadas para serem curadas. O mundo comporta hoje cerca de 40 conflitos que acontecem desde nossa vizinha Colômbia, passando pelos bolsões de miséria na África e entrando na alma do coração da Europa. E as correntes migratórias acabam deflagrando conflitos depois de algumas décadas. Ainda não sabemos, por exemplo, qual será o destino de um milhão de judeus russos que aportaram nos últimos anos no Estado de Israel, que abriga seis milhões de pessoas.

E como fica então o conceito de minoria? No caso dos albaneses, eles são a maioria perseguida dentro do Kosovo. Porém, eles já possuem o seu próprio Estado. Hoje, o planeta abriga cinco mil povos e apenas 217 Estados-nações. E podemos até assistir ao surgimento de novos Estados, como o Timor Leste e a Escócia, mas as Nações Unidas não estão interessadas em aprovar uma série de outras formações num processo global em que acontecem outros tipos de reagrupamentos.

Sem dúvida nenhuma, o desmantelamento da União Soviética e da Iugoslávia veio como efeito dominó para várias nações. Os curdos na Turquia, os ogonis na Nigéria, os tutsis em Ruanda são alinhavados por um objetivo em comum: a autodeterminação nacional. Sem esquecer os palestinos em Israel. Essa autodeterminação tende a crescer na medida em que aumenta a interdependência econômica, a formação dos blocos econômicos – como a União Européia e o Mercosul – e as uniões políticas que se integram no mundo globalizado. Isso porque acredita-se que nacionalidades que conseguem constituir-se em Estados têm mais chances de participar do sistema global.

Nesta configuração mundial desordenada, figuram ainda as sequelas da colonização nos países africanos, que desde o processo de independência dos anos 50 e 60 vêm desembocando em conflitos sangrentos. Porém, o mundo parece não prestar atenção quando os interesses econômicos não batem à porta das grandes potências, como é o caso de Serra Leoa e de Angola. Por isso, é muito pouco provável que, no curto prazo, alguma coisa seja feita para aliviar guerras de muitas décadas que provocam desastres assombrosos como a luta entre cristãos e muçulmanos na Somália.

A idéia de uma grande nação islâmica ainda sacode mais os limites do que pode ser chamado de Estado. O fracasso das tentativas de modernização, como a conservadora no Irã ou a nacionalista laica na Argélia e no Egito, fez com que o islamismo surgisse como elemento aglutinador das massas desvalidas. Na Constituição do Irã, por exemplo, está escrito que “todos os muçulmanos constituem uma única nação”. Apesar das recentes exigências da própria sociedade iraniana por mudanças, o islamismo continua sendo um elemento agregador. E a concretização de uma identidade islâmica desponta também em setores marginalizados dos países industrializados: na juventude francesa originária do Norte da África ou entre os turcos na Alemanha.

Até onde há uma forte identidade nacional, como nos Estados Unidos, as minorias estão revendo seus papéis. O conceito de cidadão americano está mudando à medida que as chamadas minorias desenham um novo mapa populacional no país. Os latinos, por exemplo, serão maioria até o ano 2025.

O Estado-nação ainda deve perdurar com legitimidade como unidade política no século XXI. Entretanto, não será uma surpresa se o mundo tiver de lidar com a separação dessas duas palavras hoje unidas por um hífen. E como afirma Hobsbawn: “Não devemos nos iludir. Acrescentar mais uma dúzia de Estados-membros à ONU não proporcionará a nenhum deles mais controle sobre seus assuntos antes do que tinham antes de serem independentes. Não serão resolvidos ou diminuídos os problemas das culturas ou de qualquer outro tipo de autonomia no mundo, não mais do que foram resolvidos em 1919.” Neste ano, a Conferência de Paz de Paris, que pôs fim à Primeira Guerra Mundial, criou 12 novos Estados soberanos, baseados no princípio da homogeneidade étnica. Isso não evitou a eclosão da Segunda Guerra Mundial.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O Conflito Árabe-Israelense - Parte I

O moderno estado de Israel está situado em um território que já foi conquistado por muitos povos: assírios, babilônios, persas, gregos, romanos, árabes muçulmanos e turcos otomanos. O país, localizado na costa oriental do Mar Mediterrâneo, é conhecido como a Terra Santa. Para os judeus, a terra é santa porque lhes foi prometida por Deus; para os cristãos, porque Jesus, sendo judeu, nasceu e viveu lá; para os muçulmanos, porque Jerusalém é o local da subida do profeta Maomé aos Céus.
Em 1948, o estado de Israel foi estabelecido e, desde então, esteve envolvido em guerras e conflitos com seus vizinhos árabes. O objetivo do presente artigo é apresentar a origem e o histórico do conflito árabe-israelense. Vamos iniciar examinando as reivindicações históricas dos judeus e árabes pela Terra de Israel. Nos próximos artigos, iremos discutir os eventos que levaram à formação do estado de Israel e analisar as questões geopolíticas do conflito.
O laço judeu à Terra de Israel data de mais de 3.700 anos. De acordo com a Bíblia, Deus prometeu que os descendentes do patriarca Abraão herdariam a terra. O Livro Sagrado revela que o povo judeu foi escravizado no Egito, até que Deus o libertou. Após sua libertação do Egito, o povo judeu foi liderado por Moisés - o maior profeta da história judaica - e levado à Terra de Israel. No entanto, foi Josué, sob o comando de Deus, que conquistou a Terra, iniciando assim a formação do primeiro estado judeu.
A nação judaica formou a sua primeira monarquia constitucional por volta do ano 1000 A.C. O segundo rei dos judeus, Davi, estabeleceu Jerusalém como a capital do país e seu filho Salomão liderou a construção do Templo Sagrado de Jerusalém.
No ano 70 D.C., os romanos destruíram o Templo Sagrado. Tudo o que restou de pé até hoje foi sua Muralha Ocidental, conhecido por todos como Muro das Lamentações, considerado pelo judaísmo como o local mais sagrado do mundo. Sendo assim, pessoas de vários países, judeus e não-judeus, visitam o Muro em Jerusalém. Elas escrevem bilhetes com pedidos pessoais a Deus e os colocam entre suas pedras.
Além de destruir o Templo Sagrado de Jerusalém, os romanos expulsaram os judeus de sua terra, dando início à diáspora, que significa a dispersão dos judeus para outros países do mundo. Contudo, apesar de terem sido conquistados pelos romanos, muitos judeus continuaram a viver na Terra de Israel.
Por volta do século IX, comunidades judaicas foram restabelecidas em Jerusalém e Tibérias. No século XI, a população judaica crescia nas cidades de Rafah, Gaza, Ashkelon, Jaffa e Caesarea. Durante o século XII, muitos judeus que viviam na Terra Prometida foram massacrados pelas Cruzadas, mas nos séculos seguintes, a imigração para a Terra de Israel continuou. Mais comunidades religiosas judaicas estavam se fixando em Jerusalém e em outras cidades.
Um dos pontos fundamentais da fé judaica é que todo o povo será liderado de volta à Terra de Israel e que o Templo Sagrado será restabelecido. Muitos judeus acreditam que o Messias, que será enviado por Deus, irá liderar o retorno de todo o povo judeu à Terra de Israel.
Contudo, muitos judeus acreditavam que eles próprios deveriam iniciar seu retorno à sua terra histórica. A idéia de estabelecer um estado judeu moderno começou a ganhar grande popularidade no século XIX na Europa. Um jornalista austríaco chamado Theodor Herzl levou adiante a idéia do sionismo, definido como o movimento nacional de libertação do povo judeu. O sionismo afirma que o povo judeu tem direito ao seu próprio estado, soberano e independente.
No final do século XIX, o aparecimento do anti-semitismo, o preconceito e ódio contra judeus, levou ao surgimento de pogroms – massacres organizados de judeus – na Rússia e na Europa Oriental. Esta violência notória contra judeus europeus ocasionou imigrações maciças para a Terra de Israel. Em 1914, o número de imigrantes vindos da Rússia para a Terra de Israel já alcançava os 100.000. Simultaneamente, muitos judeus vindos do Iêmen, Marrocos, Iraque e Turquia imigraram para a Terra de Israel. Quando os judeus começaram, em 1882, a imigrar para seu antigo território em grande escala, viviam por lá menos de 250.000 árabes.

O povo judeu baseia suas reivindicações pela Terra de Israel em diversos fatores:
1. A Terra de Israel foi prometida por Deus aos judeus. Esta é a antiga terra dos patriarcas e profetas bíblicos. Na Bíblia, inúmeras passagens citam Israel e Jerusalém como sagrados ao povo judeu e as principais orações judaicas falam sobre o retorno do povo à sua cidade sagrada. As orações judaicas são feitas em direção a Jerusalém. Durante as festas judaicas, as orações são encerradas recitando a frase “ano que vem em Jerusalém”.
2. Desde que os judeus foram exilados pelos romanos, a Terra de Israel nunca foi estabelecida como um estado. A região foi colonizada por diversos impérios, mas nunca voltou a ser um estado soberano. Foram imigrantes judeus que desenvolveram a agricultura e construíram cidades para restabelecer um estado no seu lar histórico.
3. O estado de Israel foi criado pelas Nações Unidas em 1947. É um estado democrático, moderno e soberano.
4. Toda a Terra de Israel foi comprada pelos judeus ou conquistada por Israel em guerras de defesa, após o país ter sido atacado por seus vizinhos árabes.
5. Os árabes controlam 99.9% do território no Oriente Médio. Israel representa apenas um décimo de 1 % da região.
6. A história demonstrou que a segurança do povo judeu apenas pode ser garantida através da existência de um estado judeu forte e soberano.

Acredita-se que o termo “Palestina” (Palestine) origina dos filisteus (Philistines), um povo egeu que, no século XII A .C., se estabeleceu ao longo da planície costeira do Mediterrâneo, conhecida hoje como a Faixa de Gaza. No século II, após derrotar o antigo estado de Israel, os romanos deram o nome de Palestina à terra, numa tentativa de humilhar os judeus e minimizar sua identificação com a Terra de Israel.
Em 638, a conquista árabe da Terra de Israel deu início a 1.300 anos de presença muçulmana em Israel. Porém, o país nunca foi exclusivamente árabe. Após as invasões muçulmanas do século VII, o árabe tornou-se gradualmente a língua da maioria da população da região. Apesar do controle muçulmano, nenhum estado árabe independente chegou a ser estabelecido na Terra de Israel.
A cidade de Jerusalém é considerada a terceira mais sagrada na religião islâmica (as primeiras são Meca e Medina). Acredita-se que Jerusalém seja o local onde o maior profeta islâmico, Maomé, subiu aos Céus. A mesquita al-Aqsa, onde o Domo da Rocha foi futuramente construído, marca este ponto, que é sagrado para os muçulmanos.
Enquanto os muçulmanos dominavam a região, cristãos e judeus viviam em paz, já que eram considerados os Povos do Livro. Cristãos e judeus tinham controle autônomo em suas comunidades e eram permitidos a praticar as suas religiões com liberdade e segurança. Tal tolerância religiosa demonstrada pelo povo muçulmano é rara na história do homem.
Em 1517, os turcos otomanos da Ásia Menor conquistaram a região e, com poucas interrupções, governaram Israel, então chamada de Palestina, até o inverno de 1917-18. O país foi dividido em diversos distritos, dentre eles, Jerusalém. A administração dos distritos foi cedida em grande parte aos árabes palestinos. As comunidades cristãs e judaicas, porém, receberam grande autonomia. A Palestina compartilhou a glória do Império Otomano durante o século XVI, mas foi negligenciada quando o império começou entrar em declínio no século XVII.
Em 1882, menos de 250.000 árabes viviam no local. Uma parte significante da Terra de Israel pertencia aos senhores, que viviam no Cairo, Damasco e Beirute. Por volta de 80% dos árabes palestinos eram camponeses, nômades ou beduínos.
Em 1917-18, com apoio dos árabes, os britânicos capturaram a Palestina dos turcos otomanos. Na época, os árabes palestinos não se imaginavam tendo uma identidade separada. Eles se consideravam parte de uma Síria árabe. O nacionalismo árabe palestino é, em grande parte, um fenômeno do pós Primeira Guerra Mundial.
Em 1921, o Secretário Colonial Winston Churchill separou quase quatro-quintos da Palestina – aproximadamente 35.000 milhas quadradas - para criar um emirado árabe, a Transjordânia, conhecida hoje como Jordânia. Este país, que é uma monarquia árabe, é em sua maioria composto por palestinos que hoje representam aproximadamente 70% da população.
Em 1939, os britânicos anunciaram o White Paper (Carta Branca), um documento relatando que um estado árabe independente e não dividido seria estabelecido na Terra de Israel (chamada de Palestina) dentro de 10 anos. O nacionalismo árabe cresceu com a promessa de um estado forte. Mas, como discutiremos futuramente, os britânicos não foram capazes de manter sua promessa aos árabes. Em vez disso, em 1947, as Nações Unidas decidiram dividir a Terra de Israel em dois estados: um judeu e outro árabe. Em 1948, foi estabelecido o estado de Israel. Quando seus vizinhos árabes atacaram o novo estado judeu, teve início a primeira guerra árabe-israelense. Durante o estabelecimento do estado de Israel e durante a primeira guerra entre árabes e israelenses, mais da metade dos árabes que viviam na Terra de Israel fugiram, dando início ao problema ainda hoje vigente de refugiados palestinos, que discutiremos nos próximos artigos.

O povo palestino baseia suas reivindicações pela Terra de Israel em diversos fatores:
1. Os árabes muçulmanos viveram no local por muitos anos.
2. O povo palestino tem o direito à independência nacional e à soberania sobre a terra onde viveram.
3. Jerusalém é a terceira cidade sagrada na religião muçulmana, local de elevação do profeta Maomé aos Céus.
4. O Oriente Médio é dominado por árabes. Outras religiões ou nacionalidades não pertencem à região.
5. Todos os territórios árabes que foram colonizados tornaram-se estados completamente independentes, exceto a Palestina.
6. Os palestinos tornaram-se refugiados. Outros países árabes nunca os aceitaram completamente e eles vivem freqüentemente em campos para refugiados tomados pela pobreza.

Conclusão
O conflito entre israelenses e palestinos é acima de tudo uma questão geográfica. Neste artigo, cobrimos resumidamente a história judaica e palestina em relação à Terra de Israel. Nos próximos artigos, discutiremos os acontecimentos históricos que levaram tanto ao estabelecimento do estado de Israel quanto ao conflito entre árabes e israelenses. Discutiremos questões geopolíticas e explicaremos como elas fazem parte da atual violência entre israelenses e palestinos.

A explosão

02 de outubro de 1996
Revolta palestina contralinha dura de Israel deixa mais de sessenta mortos
A senhora palestina saiu da mesquita de Al-Aksa, no coração de Jerusalém, na sexta-feira, e parou, assustada com a enorme concentração de policiais israelenses à espera dos fiéis muçulmanos. 'Netanyahu maj’noun!', espantou-se -'Netanyahu está louco!'. No final da semana em que os palestinos se revoltaram contra as repetidas provocações feitas pelo governo linha-dura de Israel e a polícia palestina enfrentou o Exército israelense num confronto sangrento, com mais de sessenta mortos e de 1 000 feridos, não era difícil acreditar, no nível das impressões populares, que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu estava realmente maj’noun.
Movido pela cega obstinação de rever as regras do jogo herdadas do governo anterior, em apenas 100 dias ele implodiu sistematicamente o já complicadíssimo processo de acomodação entre judeus e palestinos, que seus antecessores levaram seis anos para construir. A gota d’água foi a decisão de reabrir sorrateiramente um túnel arqueológico que passa perto das duas mesquitas veneradas pelos muçulmanos, na parte antiga de Jerusalém. Diante da rebelião popular detonada por essa decisão insensata e arrogante, Netanyahu demonstrou o distanciamento da realidade que se espera encontrar em quem mergulhou na condição de maj’noun, mas jamais na de primeiro-ministro de um país à beira de ser engolfado numa situação de guerra.

Pouco-caso - Como se confundisse desejos com realidade, ele lavou as mãos de qualquer responsabilidade e acusou Yasser Arafat, o presidente da Autoridade Palestina, pelo caos nos territórios ocupados por Israel. Netanyahu tentou vender um peixe estragado: tudo não passou de uma maquinação perversa para pressionar Israel a ceder nas negociações de paz (que àquela altura já haviam corrido ralo abaixo). Ele também fez pouco-caso do pedido dos Estados Unidos, o grande patrono, que protege e banca a conta do Estado judeu, em favor de uma solução negociada para a crise.
Aos apelos do resto do mundo, onde se multiplicavam os sinais de alarme - Alemanha, França e Inglaterra fizeram uma declaração conjunta sem precedentes, implorando a pacificação dos ânimos -, Netanyahu respondeu mandando reprimir qualquer manifestação na área das mesquitas em Jerusalém. Recebida com pedradas, a polícia matou três palestinos e feriu mais de cinqüenta. No meio da multidão, o repórter Daniel Blumenthal, colaborador de VEJA, sentiu de perto a impotência das pessoas pegas no fogo cruzado da repressão indiscriminada. 'A polícia bloqueou o portão de Nablus, na muralha norte, e só deixava passar as ambulâncias para buscar os feridos', conta. 'Eram sete. Cada uma delas fez pelo menos dez viagens até o hospital Al-Mukased.' No meio da confusão, um detalhe quase surrealista: um ursinho de pelúcia, jogado no chão que já se cobria de trilhas de sangue.

Brios patrióticos - Netanyahu teimou em abrir a nova passagem do túnel arqueológico - o estopim da revolta palestina -, apesar das advertências do serviço secreto e de seus próprios ministros sobre a inconveniência da medida num momento de tensões à flor da pele. O prefeito de Tel-Aviv, Roni Milo, da ala mais moderada do Likud, o partido que chefia a coalizão de governo, chamou-o de tolo por forçar a barra numa questão irrelevante como essa. Pela ótica da linha dura, medidas mais graves, como a autorização da construção de mais colônias judias nos territórios palestinos, fazem sentido - e, afinal, constavam da plataforma de campanha que elegeu Netanyahu. Absurdo foi insistir na abertura do túnel, que mexe com explosivos sentimentos religiosos e fere fundo os brios patrióticos palestinos. Encurralado pelas sucessivas provocações, Arafat reagiu com a convocação de greves e manifestações nos territórios e acusou Israel de avançar ainda mais a 'judaização de Jerusalém'. O pretexto de que a ampliação do túnel aumentaria o movimento turístico (afetado, na verdade, pelo clima de instabilidade vigente desde a posse do atual governo) pareceu quase macabro diante das conseqüências. 'Não conheço nenhuma mãe disposta a sacrificar seu filho para aumentar o turismo', ironizou o ex-primeiro-ministro Shimon Peres, derrotado por Netanyahu nas últimas eleições. 'Nada de bom pode resultar desse túnel', previu.
O banho de sangue começou de maneira quase habitual. Palestinos fazem manifestações, jogam pedras, tocam fogo em pneus velhos. Policiais e soldados israelenses respondem com balas de borracha e cassetetes (o ministro das Finanças, Mohamed Nashashibi, levou umas pancadas, o elegante Faisal Husseini, representante da OLP em Jerusalém, baixou no hospital). O confronto permanecia dentro do figurino da intifada, a revolta palestina movida a pedradas e encerrada com os acordos de paz, em 1993. Então, a situação fugiu ao padrão. 'Um membro da Força 17 (a tropa de elite de Arafat) viu um civil cair ensangüentado a seus pés', contou Khaled Matur, um estudante palestino ferido a bala no ombro. 'Ele perdeu o controle e abriu fogo. Logo todo mundo, palestinos e israelenses, estava atirando indiscriminadamente.'

'Deus é grande' - Outro policial deu explicação diferente para sua reação: se não atirasse, enquanto sua gente era moída, a fúria da multidão se voltaria contra ele. O tiroteio escalou rapidamente para um confronto generalizado, em todas as regiões árabes, entre as forças policiais palestinas e as tropas de ocupação, num surto de violência sem paralelo nesse conflito, que dura desde 1967. Os feridos nos hospitais eram tantos que pessoas atingidas com menos gravidade, nos braços e nas pernas, esperavam horas por atendimento. Apinhado de gente ansiosa em busca de parentes desaparecidos e jovens enfurecidos, que recebiam as ambulâncias aos gritos de 'Deus é grande', o brado de guerra islâmico, o hospital de Ramallah, cidade vizinha de Jerusalém, revivia o clima dos dias mais violentos da intifada. A realidade, contudo, era bem diferente. A entrada da polícia de Arafat em confronto aberto com o Exército israelense estabeleceu uma nova - e ainda mais brutal - realidade na difícil convivência entre palestinos e israelenses, que até então realizavam patrulhas conjuntas nas áreas autônomas.
Um incidente bizarro na cidade de Nablus ilustra o paradoxo da batalha entre dois signatários de um tratado de paz, mas que não chegam a um acordo de convivência pacífica. Num embate humilhante para o poderoso Exército do Estado judeu, um pelotão inteiro de 42 soldados israelenses viu-se cercado pela multidão de manifestantes e precisou do socorro da polícia palestina para se safar com vida. Os soldados faziam a guarda de uma antiga mesquita, que muitos judeus acreditam ser o túmulo de José, o personagem bíblico. O edifício murado, usado como centro de estudos por judeus religiosos, é o único enclave israelense na cidade sob controle palestino. A tropa enviada para resgatar a guarnição também foi cercada e abandonou seus veículos para se refugiar no prédio, logo invadido e ocupado pela polícia palestina. A televisão mostrou policiais gritando em hebraico 'não tenham medo' para os israelenses cercados. Os palestinos também forneceram água, comida e até telefones celulares para que os soldados pudessem ligar para casa.
No final do dia, a polícia palestina escoltou os soldados feridos até o território israelense e emprestou ambulância para levar os corpos de seis militares mortos. Símbolo da vitória, a bandeira palestina foi hasteada na torre de vigia em lugar da costumeira Estrela de Davi. A gravidade do confronto em Nablus não se mede apenas pelo número de baixas israelenses, mas pelo ataque a um lugar santo judaico. A analogia inevitável é com Hebron, onde 400 colonos, todos fanáticos religiosos, vivem junto a outro santuário, o Túmulo dos Patriarcas, no meio de 120 000 palestinos. Netanyahu diz que não retira as tropas porque ficaria difícil proteger os colonos. O episódio de Nablus demonstra que manter um pequeno enclave numa cidade palestina é um risco ainda maior.

Frente ampla - Na Faixa de Gaza, onde Arafat instalou a sede de seu governo, milhares de palestinos cercaram as colônias de Netzarim e Kfar Darom, duas pequenas povoações isoladas entre 1 milhão de palestinos. Outro enclave minúsculo, Nissanit, no norte da Faixa, precisou ser evacuado. Com a ajuda da polícia, a multidão atacou um pequeno posto de vigilância israelense a menos de 2 quilômetros de Netzarim, na quinta-feira. O Exército israelense decretou estado de emergência nos territórios e, pela primeira vez desde a conquista em 1967, enviou tanques para a Cisjordânia. Um helicóptero equipado com metralhadoras - arma de guerra pesada - chegou a ser usado para atacar franco-atiradores entrincheirados num prédio de apartamentos. Outro metralhou palestinos na cidade de Rafez e acabou matando um tenente egípcio, do lado de lá da fronteira. Por volta do meio-dia de quinta-feira, Arafat ordenou à polícia palestina que só abrisse fogo em autodefesa - as tropas não lhe deram a mínima atenção e continuaram trocando tiros com os israelenses.
Só no dia seguinte a polícia palestina voltou a acatar as ordens de Arafat - talvez por isso mesmo o número de mortos na sexta-feira caiu para sete palestinos e três israelenses. A força policial de 40 000 homens, a maioria ex-guerrilheiros repatriados dois anos atrás, quando a Autonomia foi estabelecida, é a espinha dorsal do poder de Yasser Arafat. Na semana passada, foi praticamente a primeira vez que dispararam em defesa da população palestina - até então, vinham se especializando na repressão interna, exigida por Israel e pelos Estados Unidos para controlar o terrorismo dos fundamentalistas muçulmanos. A ação da polícia, com o conseqüente aumento de vítimas entre os palestinos, reavivou o orgulho nacional e, ironicamente, deu mais algum fôlego a Arafat. A convocação aos protestos de quinta-feira foi feita na base da frente ampla, assinada por todas as vertentes palestinas, desde a Fatah até os radicais do Hamas.

Decepção dos otimistas - Surpreendi-do pela revolta durante uma viagem pela Europa, Netanyahu mostrou a mesma alienação da realidade que se perceberia na entrevista de sexta-feira. 'Não sei por que tanta confusão', espantou-se na Alemanha. Na quinta-feira, alertado sobre a gravidade da situação, voltou às pressas para Israel e se pôs a telefonar para Arafat em busca de um encontro - rejeitado em primeira instância. 'Tudo isso mostra como faltam a Netanyahu habilidade e sabedoria', diz o ex-ministro trabalhista Moshe Shahal. 'Ele não tem a mínima capacidade para ser primeiro-ministro de Israel.'
Quando Netanyahu foi eleito, os otimistas achavam que ele poderia 'ver a luz', como não é incomum acontecer com durões colocados diante das realidades do poder. Se o intransigente Menachem Begin assinou a paz com o Egito, Bibi, moderno, com muitos anos de vida nos Estados Unidos e conhecimento das técnicas de marketing, também poderia render-se à lógica da paz (as alternativas são eliminar os palestinos ou conviver eternamente com a ocupação e o domínio de uma população inimiga). Netanyahu foi uma decepção para os otimistas. Ele abandonou, na prática, o conceito de trocar terra por paz, que norteou a política dos governos trabalhistas e permitiu arrancar dos palestinos um acordo miserável - mas o único que conseguiram. Eleito com a promessa de oferecer 'Paz com segurança', sua intransigência e falta de habilidade conduziram à situação que se via ao fim da semana: Israel não tinha uma coisa nem outra.

'Dinossauro' - Fora das fronteiras imediatamente explosivas do conflito com os palestinos, a situação não é muito melhor. Em apenas três meses, Israel retrocedeu ao isolamento diplomático de duas décadas atrás. Mesmo antes da eclosão da nova fase da revolta palestina, as relações com o Egito iam de mal a pior. Antecipando-se ao julgamento que se tornou corrente na semana passada, o subsecretário do Ministério das Relações Exteriores do Egito, Adel Safti, disse que Netanyahu sofre de um 'medo patológico' em questões de segurança e deveria procurar 'aconselhamento psicológico'. Outro ministro egípcio qualificou-o de 'dinossauro'.
As negociações de paz com a Síria foram não apenas interrompidas como agora ambos os países estão concentrando tropas nas fronteiras. O Catar desistiu de enviar representante para Tel-Aviv. O rei Hassan, do Marrocos, que se entendia bem com Shimon Peres, suspendeu os contatos. Até a Jordânia, paparicada pelos israelenses e interessada em manter um bom relacionamento, cancelou uma visita do príncipe Hassan, irmão do rei Hussein. Também nesse caso o primeiro-ministro israelense não consegue entender por que sua política em relação aos palestinos irrita tanto os vizinhos árabes. Se não é loucura clínica, é um caso extremo de insanidade política. Maj’noun, com certeza.

As portas abertas da guerra
Uma obra feita na calada da noite, sob forte proteção policial, no coração histórico da cidade que dois povos inimigos disputam como sua capital, não poderia mesmo dar certo. O túnel que provocou a explosão de revolta entre os palestinos existe há mais de 2 000 anos na parte antiga de Jerusalém e tem interesse arqueológico. Ao longo de seus 488 metros, há marcas das inúmeras civilizações que já passaram por Jerusalém: um aqueduto construído pelos macabeus há quarenta séculos, uma rua romana, uma pedra do alicerce do Muro das Lamentações, uma piscina bizantina e vestígios da época da dominação árabe e das cruzadas cristãs. O que interessa, no entanto, está acima da superfície: a 400 metros do túnel, erguem-se as magníficas mesquitas de Al-Aksa e de Omar, particularmente veneradas pelos muçulmanos. A mesquita redonda de Omar circunda a rocha bruta de onde, segundo a crença islâmica, o profeta Maomé ascendeu aos céus.
A alegação, feita pelos palestinos, de que a ampliação do túnel abalaria as fundações da mesquita pode parecer paranóia. E é - o mais insano dos governos israelenses não cogitaria cometer tal sacrilégio. Mas até a paranóia tem seu lado compreensível quando se lembra que fanáticos judeus chegaram a planejar um atentado com explosivos para detonar a mesquita inteira, a pretexto de reconstruir em seu lugar o templo judaico destruído pelos romanos. (Os terroristas foram presos antes de levar a conspiração adiante, julgados, condenados e, mais tarde, anistiados.)

Na marra - O argumento do governo israelense para estender o traçado do túnel pareceria até razoável, em tempos mais normais: aumentar o fluxo de turistas. Até agora, os visitantes tinham de entrar e sair da passagem, com cerca de 1 metro de largura, pela única porta, ao lado do Muro das Lamentações. Um segundo ponto de acesso permitiria movimento maior. No ano passado, durante o governo de Yitzhak Rabin, quando as negociações de paz pareciam avançar, representantes palestinos teriam concordado com a abertura do túnel. Em troca, teriam acesso a outro sítio arqueológico subterrâneo, localizado debaixo da esplanada das mesquitas. Rabin foi morto por um fanático judeu, terroristas palestinos tumultuaram o processo de paz, Benjamin Netanyahu acabou eleito com seu discurso de linha dura. Em mais um desafio aos palestinos, resolveu abrir o túnel na marra. Deu no que deu.

Os 100 dias que detonaram a paz
O confronto entre o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e os árabes começou no dia 1 do seu governo. Os incidentes sucederam-se numa escalada, até a grande explosão:
• Logo que assumiu, em junho, Netanyahu exigiu mais garantias para os judeus fanáticos que vivem num bunker em Hebron, cidade que deveria passar à administração palestina. As tropas israelenses continuam lá, no desafio mais flagrante aos acordos de paz.
• A angústia foi crescendo com a revogação da proibição de novas colônias na Cisjordânia ocupada. Aumentou o ritmo de construção de estradas exclusivas para os colonos judeus. Dezenas de milhares de palestinos continuaram proibidos de entrar em Israel para trabalhar.
• Só três meses depois da posse Netanyahu encontrou-se com o líder palestino Yasser Arafat. Um encontro gelado. Depois da reunião, o primeiro-ministro disse que os palestinos jamais teriam um Estado próprio.
• O anúncio do plano de construir 3 800 casas para colonos na Cisjordânia levou Arafat a convocar greve geral e manifestações. Israel fechou o acesso ao local do protesto.
• Israel pôs abaixo um centro comunitário palestino que, segundo alegou, funcionava sem licença, e uma 'confusão da segurança' forçou o helicóptero de Arafat a vagar por 45 minutos antes de conseguir pousar na Cisjordânia. Aumentou o número de soldados israelenses nas ruas de Jerusalém.
• Do lado de fora, os países árabes acompanharam o começo de governo com ansiedade crescente. A Síria grudou um batalhão nas colinas de Golã, que Israel ocupou em 1967 e Netanyahu excluiu totalmente um eventual acordo de paz. No Egito, o tom das críticas atingiu níveis sem precedentes.